Os potenciais impactos negativos do El Niño, combinados a fatores como crédito rural limitado, alto grau de endividamento de agricultores, preços achatados e cenário internacional conturbado, influenciarão as decisões relacionadas à próxima safra de arroz, que começa a ser semeada no Estado no final de setembro.
O Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga) ainda está concluindo sua pesquisa sobre a intenção de plantio para o ciclo 2026/2027, mas, segundo o presidente da autarquia, Alexandre Velho, as perspectivas já sinalizam uma redução de 5% a 10% na área cultivada com o cereal, que na última safra totalizou 891,9 mil hectares. Os dados finais serão apresentados durante a 49ª Expointer, de 29 de agosto a 6 de setembro de 2026, no Parque de Exposições Assis Brasil, em Esteio (RS).
Se concretizada, a previsão de chuvas frequentes e intensas em razão do El Niño poderá atrasar a semeadura do arroz e comprometer o desempenho das lavouras. Essas áreas são irrigadas e dependem de boa luminosidade no verão, explica Velho. “O custo (de produção) do arroz hoje é de R$ 80,00 o saco. O produtor não tem como plantar em áreas que não sejam de alta produtividade, para se tornar viável economicamente. A palavra é racionalização”, enfatizou ele nesta quarta-feira (5).
Na avaliação do dirigente, apesar de terem esboçado uma reação, as cotações do arroz ainda são muito inferiores ao custo da lavoura. De acordo com o indicador Cepea/Irga-RS divulgado nesta quarta-feira, o preço médio do arroz em casca (não processado), de R$ 70,00 a saca, atingiu em julho o maior patamar dos últimos 11 meses, refletindo um quadro de oferta baixa e demanda aquecida.
-“Nós precisamos de um equilíbrio no preço, porque, do contrário, vamos depender de uma importação que não tem a qualidade do nosso arroz, não tem nem de perto os cuidados na área ambiental que nós temos”, disse Velho, citando o Selo Ambiental, certificação concedida pelo instituto a produtores de arroz irrigado que adotam práticas de manejo sustentável e atendem à legislação ambiental.
Diante dos preços desfavoráveis, Velho afirma que o Irga busca a diversificação de mercados externos, especialmente no caso do arroz em casca, que tem maior peso nas exportações do setor. Atualmente, o principal destino do produto brasileiro é a América Central.
-“O Brasil dependia muito de países instáveis politicamente, como é o caso de Cuba e da Venezuela. Então, a Federarroz (Federação das Associações de Arrozeiros do Estado) fez um trabalho bastante forte, (que resultou na) abertura do México”, observou Velho.
Antes de assumir a presidência do Irga, em fevereiro deste ano, ele liderou a entidade parceira entre 2019 e 2025. “Exportamos atualmente 10%, 15% do que produzimos, precisamos aumentar o percentual exportado”, afirmou, acrescentando que o departamento comercial do Irga foi reestruturado neste ano e deve manter o foco na abertura de mercados.
As estratégias de fortalecimento da orizicultura incluem também os biocombustíveis. Segundo Velho, o uso do arroz na produção de etanol surge como alternativa para fazer frente a crises de preços e excesso de oferta no setor, sem impactar a oferta do arroz destinado à alimentação humana. Esse novo segmento de mercado poderia estimular, inclusive, um aumento da área de plantio de arroz.
-“O Estado tem linhas de produção de etanol, hoje mais voltada para milho e trigo, que já estão sendo ampliadas, prevendo também o uso de arroz. Com uma tonelada de arroz, você consegue fazer 400 litros de etanol. A minha idéia é fazer um grupo de trabalho para se dedicar a esse assunto”, destacou.